O Mistério do Caso de Campolide | Francisco Moita Flores

Monday, February 4, 2019 Moura, Portugal


Título: O Mistério do Caso de Campolide
Autor: Francisco Moita Flores
Editora: Casa das Letras // LEYA
Ano de publicação: 2018
Páginas: 287

Onde comprar (portes grátis): Wook*

À semelhança do que fiz em 2018, este ano pretendo conhecer e explorar a nossa literatura. Quem segue o meu canal, já deve saber que no ano passado conheci muitos autores Portugueses e Lusófonos - a maioria dos quais fantásticos -, o que me fez querer continuar esse processo. O primeiro autor Português que conheci este ano foi Francisco Moita Flores, através do seu mais recente lançamento, O Mistério do Caso de Campolide. Este é o primeiro romance policial do autor, que me foi gentilmente enviado pela editora, a quem agradeço desde já ♡

A História

Em O Mistério do Caso de Campolide, como era de esperar por se tratar de um policial, seguimos um inspector/detective - Simão Rosmaninho, agente da Polícia de Investigação Criminal (PIC). Se estranharem a designação das Instituições, deve-se ao facto de este ser um policial histórico, já que se passa em 1937, durante o Estado Novo.
Lisboa mostrava os rendilhados encardidos dos pedintes, dos almocreves esquálidos, dos funcionários públicos humildes, das costureirinhas e serviçais que abandonavam as profissões para se dedicarem ao fado (p. 22)
O nosso agente entra em cena quando, durante um jantar de celebração onde estavam várias personagens importantes, um recém-nomeado deputado morre. Um dos convidados do jantar, médico-cirurgião, declara o óbito por enfarte. Porém, Simão não acredita nessa teoria, e defende que Álvaro Penaguião foi, na verdade, assassinado. Assim, seguimos a personagem principal durante a investigação deste caso delicado, acompanhando também um pouco a sua vida amorosa.

Opinião

Fiquei agradavelmente supreendida com a escrita de Moita Flores. Além de se ler muito bem, e de a escrita não ser complicada, o próprio uso que o autor faz da língua torna a leitura acessível, embora exista algum vocabulário incomum nos dias que correm. Confesso que tive de pesquisar o significado de uma ou duas palavras, e que dei de caras com palavras tão 'raras' que, em toda a minha vida, só tinha ouvido uma pessoa a pronunciá-las - a minha avó. Isto acaba por ser fruto da componente histórica desta obra, algo que me agradou bastante. Não só nos são apresentados o contexto político, a sociedade Portuguesa e a Lisboa dos anos 30, como a própria linguagem é também adaptada à época que o autor retrata.
Olhou o Rossio, onde se cruzavam carroças e automóveis, eléctricos e autocarros num ambiente rasgado pelos pregões dos ardinas (p. 143)
Para além do típico e viciante enredo whodunnit, utilizado pelo autor, um dos melhores aspectos desta obra é, sem dúvida, o elenco de personagens. Há com cada indivíduo, e cada um mais ordinário, trapalhão, e engraçado que o outro, que eu fui soltando gargalhadas ao longo de todo o livro. A meu ver, as personagens são um ponto forte, e tornam a leitura cómica, divertida, e dinâmica.
O Comandante Carapau corroborava a versão do sacerdote.
- Abusou do champanhe, é o que eu digo. Foi a mistura de vinhos que lhe estoirou a barriga e o fez dar o peido mestre. É o que eu digo. Misturas, nunca!
Outro aspecto interessante da obra é a cultura e os valores que vigoravam na altura. Em vários momentos ao longo da história são-nos apresentados alguns dos valores defendidos tanto pelos homens e mulheres Portugueses, como pelo próprio Estado e, claro, por Salazar. Por falar em Estado Novo, sendo essa a época retratada, não poderia faltar a PIDE, na altura ainda PVDE, e os seus métodos pouco ortodoxos. Esses comportamentos foram, tal como a intriga política, enfatizados ao longo da história, sendo também relevantes para a mesma.
- Porque é que o teu cabelo é da cor da prata?
- É que a infância é da cor do ouro e a velhice é feita de prata. Como o Sol anuncia o dia que vai começar e a Lua traz a noite e as estrelas. (p. 81)
Apesar de ter sido uma leitura cativante desde o início, tanto pela escrita do autor, como pela minha curiosidade em relação à sua obra, senti que o final foi a parte que mais me prendeu. As últimas 70 páginas foram totalmente devoradas por mim, e considero que a forma como a resolução do caso nos foi apresentada não poderia ter sido melhor. Foi quase como o fechar de um ciclo. Eu sei que, para quem não leu, não será totalmente claro o que quero dizer, mas, quem já leu, provavelmente conseguirá decifrar 😄
E como a vida sem amor não tem graça, o autor inclui também umas pinguinhas de romance que espalha pela leitura. Apesar dos episódios românticos serem escassos, confesso que adorei, e que torço por este casal que Moita Flores juntou.
Estava na hora de falar com o pai. Dizer-lhe da sua paixão, contar-lhe que namorava uma andorinha com nome de flor e explicar-lhe como era um prazer infinito sentir a presença dela ao seu lado (p. 254)

Sendo o seu primeiro romance do género policial, Moita Flores consegue produzir algo muito completo e, tendo o autor pertencido à Polícia Judiciária, com algum conhecimento de causa no que toca a criminologia e investigação. Repleto de mistério, humor, intriga, e tabu, O Mistério do Caso de Campolide foi uma óptima estreia com o autor, e anseio por ler mais da sua obra no futuro.

.

4/5 estrelas

*link de afiliado: ao comprarem através deste link, ajudam o blog com uma pequena comissão ♡

Post a Comment

no instagram

© Achar o fio à meada. Design by FCD.